Sobre Periódicos

Introdução

Luisa Veras de Sandes-Guimarães

Neste ano de 2015 os periódicos científicos completam 350 anos. O marco inicial da história de periódicos foi em 1665 com a criação do Journal des Sçavans e do Philosofical Transactions, criados na França e na Inglaterra, respectivamente. Os periódicos mantiveram-se desde então como um dos principais alicerces da comunicação científica. Mas por que os periódicos científicos são tão importantes? Na época de sua criação, os maiores problemas enfrentados em relação ao conhecimento científico / descobertas científicas eram: estabelecimento da prioridade das descobertas; organização e disseminação deste conhecimento.

A prioridade de descoberta do conhecimento é de extrema importância para todos os pesquisadores. A publicação é uma das maneiras, talvez a mais eficaz, que o pesquisador tem à sua disposição para provar que foi o primeiro a descobrir algo novo e, nesse sentido, provar que a descoberta é inédita. A título de curiosidade, um dos maiores embates científicos foi travado entre Newton e Leibniz em torno da questão da prioridade de descoberta do Cálculo. Resumidamente, Newton fez suas descobertas entre 1664 e 1666 mas só as publicou em 1693 enquanto Leibniz fez suas descobertas entre 1672 e 1676, depois de Newton, mas publicou-as em 1684 e 1686, antes de Newton.

A revisão por pares ou especialistas, a respeito de características de descobertas científicas, já existia informalmente antes da criação dos periódicos. Esse procedimento foi incorporado pelos periódicos e tem uma função extremamente importante no processo de publicação de conhecimento científico, isto é, assegurar a qualidade e validade da publicação. Em pleno século XXI, esta função dos periódicos se tornou ainda mais importante devido à quantidade de artigos que é publicada por ano, que gira em torno de 2 milhões.

Esta breve introdução aos periódicos científicos pretende trazer ao leitor deste manual um pouco da história e da importância dos periódicos no processo de comunicação do conhecimento científico. Em se tratando de periódicos científicos, diversos temas nos vem à cabeça, tais como: impacto, acesso aberto, qualidade e avaliação, revisão por pares, redação científica, gestão de periódicos, indexação, periódicos falsos (fake journals) entre outros. Alguns destes temas serão tratados neste manual e outros ficarão por conta da curiosidade do leitor.

Comunicação do conhecimento e periódicos científicos

Luisa Veras de Sandes-Guimarães

A atividade de pesquisa é de extrema importância para o desenvolvimento da ciência, pois propicia a geração de novos conhecimentos, que podem ser utilizados para melhor compreender um fenômeno ou para desenvolver novas pesquisas. O fluxo da informação é constituído de um ciclo contínuo que envolve os processos de construção, comunicação e uso do conhecimento (Le Coadic, 1996). Nesse sentido, o trabalho de pesquisa e investigação científica não tem um fim em si mesmo, a comunicação dos resultados, as críticas e as citações subsequentes fazem parte do processo de construção do conhecimento (Ziman, 1979).

A comunicação exerce um papel essencial na comunidade científica, na medida em que assegura o intercâmbio de informações sobre pesquisas em andamento e novos conhecimentos gerados, garantindo o constante contato entre cientistas e, nessa medida, contribuindo para aperfeiçoar conhecimentos existentes e a produção de novos conhecimentos. Essa etapa de comunicação objetiva “transferir o conjunto de conhecimentos gerados a partir da investigação científica, viabilizando novas reflexões e novos avanços” (Carvalho, 2011, p. 25).

Mueller e Passos (2000) lembram que o novo conhecimento deve ser submetido ao exame de outros cientistas (pares) que irão avaliar sua qualidade e validade. Para que o conhecimento seja reconhecido como científico deve, também, ser publicado, sendo o periódico o veículo mais utilizado para tal finalidade, embora ocorram variações de uma área do conhecimento para outra.

Pode-se dizer que a comunicação científica existe desde que se iniciaram as primeiras pesquisas.  Os gregos antigos foram os primeiros a utilizar a fala (nos debates) e a escrita (nos manuscritos) como forma de comunicação das atividades e pesquisas realizadas. Com o advento da imprensa, no século XV, a produção de textos impressos aumentou rapidamente e o livro tornou-se um importante instrumento para transmitir os resultados de pesquisas. Outro meio importante de comunicação eram as correspondências pessoais. Durante um longo tempo, portanto, esses foram os principais meios utilizados para a comunicação científica. No entanto, os livros demoravam muito tempo para serem publicados, o que, certamente, impedia que a ciência se desenvolvesse no ritmo desejado (Meadows, 1999).

Em meados do século XVII surgiu um novo meio para a divulgação científica: o periódico científico. Segundo Meadows (1999), a ideia de se criar uma publicação periódica surgiu na Royal Society de Londres. Até essa época, a difusão de informações sobre novas pesquisas era realizada por meio de correspondências, mantidas pelo secretário da sociedade, Henry Oldenburg. No entanto, a quantidade de cartas acumuladas passou a trazer um grande ônus à Royal Society, e pensou-se em reunir as mais importantes em uma publicação a ser editada periodicamente.

Apesar de terem sido os britânicos os primeiros a pensar na ideia, foi na França, em janeiro de 1665, que Dennis de Sallo criou o primeiro periódico: o Journal des Sçavans (posteriormente intitulado Journal des Savants), dedicado a publicar notícias sobre o que acontecia na Europa na chamada “república das letras”. Tomando conhecimento disso, em março do mesmo ano, a Royal Society iniciou a publicação de seu periódico, o Philosofical Transactions, o qual continua sendo publicado até o momento. Desse modo, a introdução do periódico significava a formalização da comunicação científica, permitindo a disponibilização das pesquisas por um longo período de tempo e para um público amplo. Os periódicos passaram, então, a ser amplamente utilizados para a comunicação do conhecimento. Ainda segundo Meadows (1999), os periódicos contribuem para o reconhecimento de prioridade da descoberta científica, ao colocar a data de recebimento do artigo. Mais que isso, são também responsáveis por garantir que seja publicado material de qualidade por meio da avaliação pelos pares.

Os periódicos científicos apresentam algumas funções que são essenciais para a comunicação científica:

  1. Difusão / Disseminação do conhecimento;
  2. Preservação do conhecimento;
  3. Definição de prioridade científica, funcionando como instrumento de reconhecimento científico;
  4. Certificação do conhecimento assegurando o padrão de qualidade da ciência (Suaiden, 2008; Targino & Garcia, 2008; Agha & Fowler, 2015).

Os periódicos científicos, no contexto acadêmico, apresentam uma forte relação com o “[...] sistema de recompensa acadêmica e com o reconhecimento dos pares, exercendo papel vital na validação das pesquisas executadas” (Targino & Garcia, 2008, p. 45). 

Referências

Agha, R. A., & Fowler, A. J. Celebrating 350 years of academic journals. International Journal of Surgery19, 146-147. DOI: 10.1016/j.ijsu.2015.05.030

Carvalho, K. de C. (2011). Revista científica e pesquisa: perspectiva histórica. D. A. Población, G. P. Witter, L. M. S. V. C. Ramos, & V. M. B. de O. Funaro (Orgs.), Revistas científicas: dos processos tradicionais às perspectivas alternativas de comunicação (pp. 23-42). Cotia: Ateliê Editorial.

Le Coadic, Y.-F. (1996). A ciência da informação. Brasília: Briquet de Lemos.

Meadows, A. J. (1999). A comunicação científica. Brasília: Briquet de Lemos.

Mueller, S. P. M., & Passos, E. J. L. (2000). As questões da comunicação científica e a ciência da informação. In S. P. M. Mueller & E. J. L. Passos (Orgs.), Comunicação científica (pp. 13-22). Brasília: Ed. da UnB.

Suaiden, E. (2008). Como gerir revistas científicas. In S. M. S. P. Ferreira & M. das G. Targino (Orgs.), Mais sobre revistas científicas: em foco a gestão (pp. 9-13). São Paulo: Editora Senac.

Targino, M. das G., & Garcia, J. C. R. (2008). O editor e a revista científica: entre o feijão e o sonho. In S. M. S. P. Ferreira & M. das G. Targino (Orgs.), Mais sobre revistas científicas: em foco a gestão (pp. 41-72). São Paulo: Editora Senac.

Ziman, J. (1979). Conhecimento público. Belo Horizonte: Itatiaia.

Acesso aberto

Luisa Veras de Sandes-Guimarães

O acesso aberto pode ser entendido como um processo de descentralização, que permite potencializar a disseminação e o uso do conhecimento científico (Cardoso, Caraça, Espanha, Triães, & Mendonça, 2009). Tal possibilidade é ainda mais acentuada com os crescentes avanços da Internet, tanto em termos tecnológicos quanto em termos de alcance. Entretanto, como afirmam Solomon e Bjork (2012), muito do potencial da Web ainda é subutilizado, pois o modelo de negócio da indústria de publicação científica continua sendo baseado na venda de assinaturas para acesso ao conteúdo, que continuam cada vez mais caras.

De fato, o preço de assinaturas de periódicos aumentou substancialmente ao longo das últimas décadas e o orçamento da grande maioria das bibliotecas universitárias não conseguiu acompanhar esse crescimento. Isso tornou difícil para bibliotecas manterem o mesmo número de assinaturas e criou uma barreira de acesso aos conteúdos de conhecimentos que são divulgados (King & Tenopir, 1998). Outros autores como McCartan (2010), McGuigan e Russell (2008) e Luethi (2008) corroboram com o argumento anterior, mostrando que a preocupação continua válida. A Universidade de Princeton, por exemplo, passou a impedir, quase totalmente, a cessão aos Publishers dos direitos autorais de artigos publicados por pesquisadores da universidade, mantendo quase toda a publicação institucional em acesso aberto.

A justificativa para essa iniciativa é de fato válida, já que, como exposto por Creagh (2011), as universidades pagam milhões de dólares ao ano por assinaturas de periódicos e pessoas ou instituições que não os assinam (os custos podem ser de até $25.000 por ano para um único periódico), são frequentemente impedidas de acessar e ler uma pesquisa que foi financiada com o imposto tirado de seu próprio bolso.

Em razão de barreiras impostas por custos cada vez mais altos, os usuários têm acesso cada vez mais limitado a periódicos científicos, perdendo-se muito do potencial impacto de artigos com acesso restrito/pago. Na medida em que o impacto é crucial para a carreira dos pesquisadores, pois mede o progresso e a produtividade da pesquisa e serve como meio para obter benefícios de suas universidades e das agências de fomento (Harnard et al., 2004), quanto maior o impacto de um periódico, melhor para a ciência e para a comunidade científica.

As primeiras ações em direção ao acesso aberto (Budapest Open Access Initiative (2002) e Bethesda Statement on Open Access Publishing (2003)) apontaram para o estabelecimento de duas estratégias para o acesso aberto. A primeira ação é o auto-arquivamento. Neste caso, autores depositam, em um repositório de acesso aberto, seus artigos publicados ou aceitos para publicação em algum periódico referendado. A segunda ação é a criação ou migração de periódicos para acesso aberto, na qual instituições e editores garantem o acesso completo aos conteúdos dos periódicos que editam. A iniciativa define acesso aberto como a disponibilidade livre e irrestrita, em meio eletrônico, da literatura que pesquisadores produzem e repassam a todos interessados sem esperar retorno financeiro (incluem os post-prints e os pre-prints).

Essas e outras iniciativas deram impulso ao movimento pelo acesso aberto, causando certa pressão nas editoras que continuam detendo o copyright e impondo altos preços para as assinaturas. A questão relevante, no entanto, que é o acesso e o consequente impacto das pesquisas tem sido o grande debate nos dias atuais. O aumento do impacto pode ser comprovado, de fato, por estudos realizados nos últimos anos.

Segundo um estudo realizado por Swan (2010), as publicações em acesso livre apresentam, em geral, impacto maior que as publicações em acesso restrito. A autora analisou estudos realizados sobre impacto de periódicos em acesso aberto (31 estudos no total) mostrando que em 27 desses estudos foi constado um impacto maior dos periódicos em acesso aberto, comparados com os em acesso restrito.

Outro importante aspecto relativo ao acesso aberto e aos periódicos científicos eletrônicos é o surgimento de novos e diversificados modelos de negócios para os periódicos disponíveis em acesso aberto. Tais modelos, como os dez propostos por Wilinsky (2006), surgem como alternativa ao modelo tradicional das editoras comerciais. A preocupação com essa questão levou ao surgimento de várias iniciativas, entre elas a criação do Open Journal Systems (OJS), software livre para gerenciamento de periódicos eletrônicos, pelo Public Knowledge Project, da Universidade de British Columbia, do Canadá.

Modelos de publicação e financiamento de revistas científicas

De acordo com Dubini e Giglia (2009), existem dois grandes modelos de publicação de periódicos científicos, o modelo tradicional (Toll Access) e o acesso aberto (Open Access).

No caso do modelo tradicional, os leitores pagam pela assinatura de uma revista específica (impressa ou eletrônica), para acessar apenas um artigo online (Pay-Per-View) ou, como acontece na maioria dos casos, instituições ou consórcios pagam aos grandes Publishers (Elsevier, Emerald, Springer, Taylor & Francis, Willey-Blackwell) ou bases de dados de fontes e referenciais (Jstor, Ebsco, Proquest, Web of Science, Scopus) para acessar um amplo portfólio de periódicos científicos online (Big Deal) (Guanaes & Guimarães, 2012; Solomon & Björk, 2012). No caso brasileiro, o portal de periódicos da CAPES oferece a praticamente todas as instituições universitárias do país (com programas de pós-graduação) acesso a cerca de 24.000 periódicos em texto completo, custando em torno de 61 milhões ao ano (Almeida, Guimarães, & Alves, 2010).

Para o modelo de acesso aberto, existem diversas formas de publicação e de financiamento das revistas. Em termos de publicação, os modelos mais abordados na literatura são: via dourada (gold route), via verde (green route) e modelos híbridos. A opção pela via dourada significa que o periódico em acesso aberto deve disponibilizar os artigos abertamente, imediatamente após a publicação, no site do periódico (Björk, Sylwestrzak, & Szprot, 2014). A via verde é considerada complementar à via dourada e tem seu foco no auto-arquivamento de produtos da pesquisa científica, publicados em meios tradicionais, em repositórios institucionais ou repositórios de áreas específicas (Swan, Willmers, & King, 2014).

Uma distinção que deve ser realizada para periódicos em acesso aberto é entre o que chamam de OA Gratis e OA Libre. Acesso aberto Gratis e libre descrevem dois níveis de abertura. O Gratis refere-se ao trabalho que é livremente acessível, mas tem opções limitadas para reuso; o libre é um trabalho que pode ser reutilizado, sujeito ao licenciamento escolhido pelo periódico (Swan et al., 2014). As licenças Creative Commons utilizadas para o OA libre são duas: CC BY (Atribuição) ou CC BY-SA (Atribuição-CompartilhaIgual).

Com relação aos modelos híbridos, Bernius, Hanauske, König e Dugall (2009) explicam que a maioria dos periódicos científicos fornece acesso aberto parcial ao seu conteúdo, para que o acesso a algumas partes da revista, como sumário, resumos e editoriais, seja livre. Já o acesso aberto postergado significa que um Publisher permite o acesso aos artigos das revistas depois de um determinado período de tempo (embargo), normalmente um ano, após o qual os direitos exclusivos do artigo voltam para o autor (Bernius et al., 2009). O acesso aberto opcional significa que os Publishers permitem que o autor decida se quer que o artigo seja acessado abertamente ou não. No entanto, é necessário pagar uma taxa, que no caso da Springer, por exemplo, custa U$ 3.000 por artigo, o que pode levar os autores a não escolher essa opção. Finalmente, o acesso aberto retrospectivo garante acesso livre aos conteúdos mais antigos da revista, a partir de determinada data para trás (Bernius et al., 2009).

Modelos de financiamento para periódicos em acesso aberto

Para periódicos que querem se manter em acesso aberto, beneficiando os leitores da revista com a isenção de taxas, existem diversas opções que podem ser combinadas para auxiliar no financiamento da revista. Crow (2009) explorou os modelos mais utilizados, dividindo-os em duas categorias: 1) Modelos do lado da oferta: taxas de processamento de artigos, publicidade, patrocínio, subsídios (internos e externos), doações, angariação de fundos, contribuições em espécie e parcerias. 2) Modelos do lado da demanda: versionamento (mídia off-line), comércio eletrônico contextual, taxas proporcionais ao uso, licenças em formatos convenientes e serviços com valor adicionado. 

Os encargos para submissão/publicação ou taxas para processamento de artigos (Article Processing Charge – APC) significam a cobrança de taxas para autores ou suas instituições para subsidiar os custos de processamento e publicação de artigos. De acordo com Crow (2009), as APCs são baseadas na premissa de que autores e suas instituições são os beneficiários diretos da publicação em periódicos científicos. Portanto, as APCs buscam distribuir os custos de publicação dos periódicos por meio daqueles indivíduos e instituições que mais se beneficiam da publicação dos respectivos artigos (Crow, 2009).

De acordo com Solomon e Björk (2012), BioMed Central e Public Library of Science (PLoS), são considerados os dois Publishers pioneiros na cobrança de APCs e na sensibilização da comunidade acadêmica no que concerne o potencial das APCs para o financiamento de publicações em acesso aberto em maior escala. No entanto, como ressaltam Björk e Hedlund (2009), esses Publishers encontraram dificuldades em cobrar taxas de publicação diretamente dos autores e estão tentando atrair financiamento diretamente das Universidades na forma de planos de adesão institucional. De acordo com uma pesquisa realizada por Crow (2009), as APCs são normalmente total ou parcialmente subsidiadas, seja por uma bolsa de pesquisa (34%), bolsa de fundações (5%), do departamento (8%) ou da biblioteca (27%) da instituição à qual o autor está vinculado. O pagamento de tais taxas por parte dos autores é relativamente baixo (5%) (Crow, 2009).

Crow (2009) estima que cerca de metade dos periódicos em acesso aberto cobram APCs, sendo que alguns cobram taxas para todos os artigos submetidos e outros cobram somente daqueles que foram aceitos para publicação. Solomon e Björk (2012) afirmam que a cobrança de taxas para submissão é lógica, já que parte dos custos de publicação de um periódico científico provém da gestão do processo de revisão por pares, que acontece antes da publicação do artigo. Como tanto os artigos rejeitados quanto os aceitos incorrem em custos, a cobrança de taxas de submissão no início do processo pode reduzir o número de submissões inadequadas que um periódico deve tratar (Crow, 2009). Por outro lado, Solomon e Björk (2012) afirmam que essa prática acaba sendo mais incomum do que o esperado devido ao receio dos editores de que isso possa deter potenciais autores.

Edgar e Wilinsky (2010) identificaram em sua pesquisa realizada com 989 periódicos que utilizam o Open Journal Systems (OJS) que as taxas de submissão e publicação representam um dos modelos de financiamento menos utilizados por esses periódicos (3% utilizam o primeiro e 9% o segundo). As assinaturas para a revista impressa (uma das estratégias de versionamento) e os subsídios provenientes de instituições, do governo e de fundações representam as maiores fontes de recursos (Edgar & Wilinsky, 2010). Esse baixo uso de APCs por parte das revistas analisadas pode ter a ver com o fato de que quase 50% dos periódicos da amostra de Edgar e Wilinsky (2010) são editados em países em desenvolvimento e, ao menos no Brasil, o uso de APCs não é uma prática comum.

Mueller (2011) analisou 193 periódicos indexados na SciELO (Scientific Electronic Library Online) em outubro de 2008 e identificou que apenas 19 (9,84%) cobravam taxas para publicação dos artigos. A maior parte dos periódicos (82,9%) contava, no entanto, com  alguma forma de apoio financeiro externo, proveniente de: agências federais (76,68%), agências estaduais (11,39%), entidades comerciais (7,25%) e entidades não comerciais (11,39%). No entanto, alguns editores contatados por Mueller (2011) afirmaram que “apoios externos têm contribuído para a manutenção das revistas, mas não são suficientes para cobrir todas as despesas envolvidas na edição, e menos ainda para permitir aprimoramentos” (Mueller, 2011, p. 218).

Referências

Almeida, E., Guimarães, J., & Alves, I. (2010) Dez anos do Portal de Periódicos da Capes: histórico, evolução e utilização. Revista Brasileira de Pós-Graduação7(13), 218-246.

Bernius, S., Hanauske, M., König, W., & Dugall, B. (2009). Open access models and their implications for the players on the scientific publishing market. Economic Analysis & Policy39(1), 103-116. doi:10.1016/S0313-5926(09)50046-X.

Bjork, B. -C., & Hedlund, T. (2009). Two scenarios for how scholarly publishers could change their business model to open access. Journal of Electronic Publishing12(1). doi:10.3998/3336451.0012.102.

Björk, B. -C., Sylwestrzak, W., & Szprot, J. (2014). Analysis of economic issues related to open access to scientific publications. Warsaw: Centre for Mathematical and Computational Modelling, University of Warsaw.

Budapest Open Access Initiative. (2002). Retrieved from http://www.soros.org/openaccess/

Cardoso, G., Caraça, J., Espanha, R., Triães, J., & Mendonça, S. (2009). As políticas de Open Access: res publica científica ou autogestão? Sociologia, Problemas e Práticas, (60), 53-67.

Creagh, S. (2011, September 28). Princeton goes open access to stop staff handing all copyright to journals – unless waiver granted. The Conversation. Retrieved from http://theconversation.edu.au/princeton-goes-open-access-to-stop-staff-handing-all-copyright-to-journals-unless-waiver-granted-3596

Crow, R. (2009). Income models for open access: an overview of current practice. Washington:  Scholarly Publishing & Academic Resources Coalition.

Dubini, P., & Giglia, E. (2009). Economic sustainability during transition: the case of scholarly publishing. Proceedings of the International Conference on Electronic Publishing, Milan, Italy, 13

Edgar, B. D., & Wilinsky, J. (2010). A survey of the scholarly journals using open journal systems. Scholarly and Research Communication1(2).

Guanaes, P. C. V., & Guimarães, M. C. S. (2012). Modelos de gestão de revistas científicas: uma discussão necessária. Perspectivas em Ciência da Informação17(1), 56-73.

Harnard, S., Brody, T., Vallieres, F., Carr, L., Hitchcock, S., Gingras, Y, Oppenheim, C., Stamerjohanns, H., & Hilf, E. (2004). The access/impact problem and the green and gold roads to open access. Retrieved from http://eprints.ecs.soton.ac.uk/9939/1/impact.html

King, D., & Tenopir, C. (1998). A publicação de revistas eletrônicas: economia da produção, distribuição e uso. Ciência da Informação27(2), 176-182.

Luethi, M. (2008). Self-governance in science: what can we learn from FOSS? DIME working papers, (34).

McCartan, P. (2010). Journals and the production of knowledge: a publishing perspective. British Journal of Political Science40(2), 237-248. doi: 10.1017/S0007123410000062.

McGuigan, G., & Russell, R. (2008). The business of academic publishing: a strategic analysis of the academic journal publishing industry and its impact on the future of scholarly publishing. Electronic Journal of Academic and Special Librarianship9(3). 

Mueller, S. P. M. (2011). Produção e financiamento de periódicos científicos de acesso aberto: um estudo na base SciELO. In: D. Población, G. P. Witter, L. M. S. V. C. Ramos, & V. M. B. O. Funaro (Orgs.), Revistas científicas: dos processos tradicionais às perspectivas alternativas de comunicação (cap. 9). Cotia: Ateliê Editorial.

Solomon, D. J., Bjork, B. C. (2012). Publication fees in open access publishing: sources of funding and factor influencing choice of journal. Journal of the American Society for Information Science and Technology63(1), 98-107. doi: 10.1002/asi.21660.

Swan, A. (2010). The open access citation advantage: studies and results to date [Technical report]. School of Electronics & Computer Science, University of Southampton. 

Swan, A., Willmers, M., & King, T. (2014). Research publishing models: a guide for university managers. Cape Town: University of Cape Town, Scholarly Communication in Africa Programme.

Wilinsky, J. (2006). Ten flavors of open access. In J. Wilinsky (Org.), The access principle: the case of open access to research and scholarship (pp. 211-216). Cambridge: Massachusetts Institute of Technology.

Impacto

Luisa Veras de Sandes-Guimarães

Uma das abordagens para avaliação da qualidade de periódicos científicos, centrada na análise quantitativa de desempenho da pesquisa, envolve a utilização de indicadores bibliométricos de impacto. Com base no número de citações, verifica-se o nível de interesse de outros pesquisadores pelos artigos publicados em determinado periódico. O cálculo do impacto de publicações na comunidade científica faz parte dos estudos ou análises de citações, ramo pertencente à Bibliometria.

Análise de citações e fator de impacto

A criação e disseminação de conhecimento em uma área são facilitadas por meio da circulação de ideias entre grupos de pesquisadores. Cada autor contribui para o corpo de conhecimento de sua área criando e adicionando uma nova informação descoberta. No entanto, deve-se destacar que um artigo nunca está sozinho, mas sim inserido na literatura sobre o assunto, que forma a base para constituição de novos estudos. Neste processo, as citações são extremamente importantes, pois simbolizam o reconhecimento pela qualidade de trabalhos previamente escritos e publicados.

De acordo com Guedes e Borschiver (2005), a análise de citações apresenta três aplicações principais: em bibliotecas auxilia no gerenciamento das coleções; na ciência possui o papel de mapear o desempenho de autores; e na administração fornece bases para a tomada de decisão com relação a financiamento de pesquisas, auxílios, bolsas de estudo, orçamento de sistemas de informação etc. A técnica também é utilizada na avaliação de periódicos científicos, cálculo da produtividade de autores, medição de qualidade da informação, medição do fluxo de informação, indicação de estruturas e tendências científicas etc.

As citações representam uma ligação entre o documento citado e o citante. A natureza dessa relação é difícil de caracterizar, devido às múltiplas razões pelas quais autores citam uns aos outros, como as quinze enumeradas por Garfield: homenagear aos pioneiros; dar crédito aos trabalhos relacionados (homenagem aos pares); identificar equipamentos, metodologias etc.; fornecer uma bagagem de leituras sobre o tema; corrigir o trabalho de outros; corrigir seu próprio trabalho; criticar estudos anteriores; justificar reivindicações; alertar para futuros trabalhos; evidenciar trabalhos mal disseminados, mal indexados, ou sem citações; autenticar dados e classes de fatos físicos constantes etc.; identificar publicações originais nas quais uma ideia ou conceito foi discutido; identificar publicações originais ou outros trabalhos descrevendo um conceito ou termo epônimo; negar trabalhos ou ideias de outras pessoas (alegações negativas); contestar alegações de prioridade de outros (homenagem negativa) (Smith, 1981).

O aperfeiçoamento da análise de citações tem sido caracterizado pelo desenvolvimento de novas técnicas e medidas, pela pesquisa de novas ferramentas e pelo estudo de unidades de análise distintas. Tais tendências acarretam um acelerado aumento da quantidade e dos tipos de estudos que utilizam a análise de citações. Os primeiros estudos de citação baseavam-se, em geral, em listas de referências localizadas em artigos publicados e divulgados em um restrito conjunto de periódicos. Os dados sobre citações eram transcritos e manipulados manualmente. Portanto, devido a tal enfadonho processo, a maior parte dos estudos apresentava necessariamente um escopo limitado. Porém, com a introdução do computador e de sistemas informatizados, foi possível otimizar de maneira significativa esta situação de duas formas: por meio da impressão de índices contendo dados de citação de uma enorme quantidade de documentos e por meio da análise de dados de citação disponíveis em formato legível por máquina (Smith, 1981).

Segundo Araújo (2006) o método de contagem de referências foi utilizado por Gross & Gross pela primeira vez em 1927, dois anos depois foi empregado por Allen, e posteriormente, em 1931, por Gross & Woodford. No entanto, foi na década de 1960, com a utilização de novas ferramentas computacionais, que a técnica ganhou novo fôlego. Foi o ano de 1963 que marcou a passagem da bibliometria para uma nova fase, quando Eugene Garfield, fundador do Institute of Scientific Information (ISI), criou o primeiro índice de citações, o Science Citation Index (SCI). Posteriormente, Garfield criou outros índices buscando englobar mais áreas do conhecimento, o Social Sciences Citation Índex (SSCI) e o Arts & Humanities Citation Índex (A&HCI). Garfield também cunhou um dos conceitos mais relevantes nos estudos de citações, o Fator de Impacto.

Em princípios da década de 1960, Irving Sher e Eugene Garfield criaram o Fator de Impacto de periódicos para auxiliar no processo de seleção de revistas a serem inseridas no Science Citation Index (SCI). Ambos sabiam que o SCI precisava incluir um grupo central de grandes periódicos altamente citados. Entretanto, também reconheciam que pequenos, mas importantes, periódicos de revisão não seriam selecionados se os critérios fossem pautados somente na publicação por si só ou na contagem de citações. Era necessário, portanto, utilizar um método simples para comparar periódicos independentemente do seu tamanho, e por isso criou-se o Fator de Impacto (Garfield, 1999).

O fator de impacto de um periódico é baseado em dois elementos: o numerador, que é o número de citações no ano corrente a quaisquer itens publicados em uma revista nos últimos dois anos, e o denominador, que é o número de artigos publicados nos mesmos dois anos. Os dados sobre o Fator de Impacto de todos os periódicos indexados (hoje agregados na base de dados Web of Science) são publicados anualmente, desde 1976, no Journal of Citations Reports (JCR).

Exemplo de cálculo do Fator de Impacto

FI 2006 do periódico Physical Review Letters

Nº de citações recebidas em 2006 para

artigos publicados em: 

2005=

2004=

Total=

28078

23332

51410

Nº de artigos publicados em:

2005=

2004=

Total=

3694

3575

7269

Cálculo

Citações recebidas / Número de artigos 

51410 / 7269 =

7.072

Fonte: adaptado de Mugnaini e Strehl (2008)

Garfield (1999) acredita que os estudos de citação devem ser normalizados levando em consideração algumas variáveis como área do conhecimento ou disciplina, e as práticas de citação. A densidade de citação e a meia-vida também são variáveis importantes. A densidade de citação (número médio de referências citadas por artigo) seria significativamente menor para um artigo de matemática do que para um artigo de ciências da vida. A meia-vida (número de anos que cobrem 50% das citações no ano corrente para o periódico) de uma revista de fisiologia seria mais longa do que a de um periódico da biologia molecular ou astronomia. Apesar de tal ressalva de Garfield, o cálculo do índice continua desconsiderando as variáveis citadas por Garfield (meia-vida e densidade de citação de cada área do conhecimento) e a interpretação de tais dados também.

Dong, Loh e Mondry (2005) afirmam que a imediata disponibilidade do FI e a falta de outros indicadores de qualidade reconhecidos contribuíram para a atribuição do FI como o indicador de qualidade de periódicos. Entretanto, os autores lembram que o cálculo do FI é enviesado por vários fatores, incluindo: idioma e abrangência preferencial das bases de dados; procedimentos utilizados para coletar citações; algoritmo utilizado para calcular o FI; distribuição das citações de periódicos; citações de artigos inválidos; preferência dos Publishers por artigos de determinado tipo; comportamento das citações em diversas disciplinas; possibilidade de exercício de influência de editores de periódicos.

De acordo com os autores, as bases do ISI Web of Science abrangem menos de um quarto dos periódicos científicos do mundo, e exibem preferência por periódicos publicados em língua inglesa. Periódicos que não estão neste idioma possuem FI relativamente baixo devido à baixa cobertura de periódicos em “língua estrangeira” nessas bases (Dong et al., 2005). Os autores lembram que hoje o inglês é a língua franca da ciência, assim como foi o alemão no século XIX e início do XX, e o Latim e Grego anteriormente.

Além disso, no cálculo do FI e na contagem de citações, são consideradas apenas as citações recebidas de artigos de revistas indexadas nas bases do ISI Web of Science. Portanto, o cálculo do índice não computa citações provenientes de livros, artigos de eventos, teses, dissertações e outros periódicos não indexados na base (Harzing & Van der Wal, 2008). Este ponto prejudica periódicos brasileiros, pois, além da questão do idioma, há baixa representatividade desses periódicos na base, resultando em um FI que representa apenas parcialmente o impacto de dada publicação.

Outra questão apontada em alguns estudos é a diferença dos padrões de publicação e citação nas diversas disciplinas (Leite, Mugnaini, & Leta, 2011; Mugnaini & Población, 2010; Harzing & Van der Wal, 2008; Mugnaini & Strehl, 2008; Dong et al., 2005; Amin & Mabe, 2000; Narin, 1976). Artigos de áreas de crescimento acelerado tendem a citar referências muito mais recentes que campos de pesquisa mais tradicionais, em particular as áreas teóricas e matemáticas, levando a substanciais variações de FIs entre distintas disciplinas. Além disso, a coleta de citações num período de apenas dois anos após a publicação tem um efeito importante sobre o FI. Periódicos de campos de pesquisa que crescem rapidamente tendem a publicar trabalhos com um curto intervalo de tempo entre a submissão e a aceitação. Um grande percentual dos trabalhos é citado dentro de dois anos e, por consequência, o periódico apresenta alto FI. No entanto, existem muitos periódicos de outras áreas que apresentam mais longa meia-vida de citações e muitos trabalhos dessas revistas ainda são citados por um período de tempo bem maior do que dois anos pós-publicação.

Mugnaini e Población (2010) realizaram um estudo sobre o impacto dos tipos de documentos (artigo, livro, anais, teses etc.) nas citações de cinco revistas científicas de distintas áreas do conhecimento. Os autores constataram que o livro foi mais citado numa revista de Ciências Sociais Aplicadas, enquanto que na revista da área de Saúde Coletiva esse tipo de documento é utilizado nas mesmas proporções dos artigos científicos. Citações a periódicos internacionais prevalecem na revista de Física e na de Medicina. Anais e teses são destacados na revista de Veterinária e na de Ciência da Informação. As constatações são importantes para compreender a cultura de comunicação científica de cada área.

Leite et al. (2011) propuseram uma nova abordagem para investigar a produtividade científica. O International Publication Ratio (IPR) - índice internacional de publicação – foi desenvolvido para permitir a distinção entre grupos com diferentes tendências de publicação. Os autores coletaram por meio do banco de dados Lattes informações dos doutores da comunidade científica brasileira, incluindo área do conhecimento, afiliação e publicações. No total, 34.390 pesquisadores tiveram seus currículos analisados e suas publicações foram classificadas em cinco grupos de acordo com o IPR: (1) altamente internacional (entre 80.1-100% de publicações internacionais), (2) principalmente internacional (com 60.1-80%), (3) intermediário (com 40.1-60%), (4) principalmente nacional (com 20.1-40%) e (5) altamente nacional (com 0-20%). Os dados do IPR foram associados com as áreas do conhecimento dos pesquisadores.

Foram encontradas evidências de que o desempenho internacional é uma variável dependente da área do conhecimento. Áreas dedicadas a questões com interesses internacionais, tais como Biologia, Engenharia e Ciências Exatas e da Terra, apresentam uma grande fração de pesquisadores com IPR mais alto. Mas isso não é verdade para os campos essencialmente devotados às questões com os interesses locais e nacionais. A utilização do IPR oferece um bom exemplo da importância das idiossincrasias de cada campo como fatores críticos a serem considerados ao comparar desempenhos em diferentes áreas, dentro de um cenário onde a avaliação geral determina o destino dos recursos (Leite et al., 2011).

De acordo com Dong et al. (2005), devido à preferência que autores e pesquisadores dão às revistas com alto FI, editores podem ser tentados a aumentar artificialmente o FI de seu periódico. Uma forma muito rudimentar de fazer isso é solicitando a autocitação ao autor. Em 1997, o periódico Leukemia foi acusado de tentar manipular o seu FI. A revista solicitou aos autores que haviam submetido um artigo ao periódico que citassem mais artigos da própria revista. Mais tarde, em 2002, outro caso semelhante, o editor de um periódico sugeriu a inclusão de mais referências do próprio periódico. Sevinc (2004) também cita outros quatro casos de manipulação de FI e Falagas e Alexiou (2008) citam outros dez casos.

Mugnaini e Strehl (2008) destacam que durante um longo período de tempo somente os dados produzidos a partir bases do ISI Web of Science e os indicadores disponibilizados no JCR proporcionavam uma noção do impacto dos periódicos na comunidade científico-acadêmica. Segundo os autores, tal hegemonia também se estabeleceu em países com baixa representatividade de periódicos científicos nessas bases de dados internacionais.

Entretanto, Mugnaini e Strehl (2008) afirmam que a situação está mudando, pois outras bases de dados com capacidade de indexar citações foram criadas, disputando, portanto, espaço com o ISI Web of Science na produção de dados para calcular medidas de impacto de periódicos científicos. Os autores destacam, considerando o contexto da ciência dos países em desenvolvimento, as bases de dados: Scietific Electronic Library Online (SciELO), Scopus e Google Scholar.  Na área de Administração, destaca-se a base de dados Scientific Periodicals Electronic Library (SPELL), que indexa 92 periódicos da área de Administração, Contabilidade e Turismo e deve, em breve, gerar indicadores de impacto.

Além disso, outros índices para aferição de impacto foram constituídos, tais como, H-index, G-index, E-index e, mais recentemente, o Altmetrics, que propõe o uso de métricas não tradicionais para mensuração de impacto de artigos, tais como downloads e vizualizações, discussões em redes sociais, bookmarking (salvar em favoritos) entre outros.

Índice H

O índice H foi proposto de pelo pesquisador Jorge Hirsch (2005) e, inicialmente, tinha a função de subsidiar a avaliação qualitativa de pesquisadores da área da física. No entanto, a medida também ganhou destaque em outras áreas do conhecimento, sendo hoje intensamente utilizada na avaliação de impacto de pesquisadores. Além disso, passou a ser também utilizada para calcular o impacto de periódicos científicos, função proposta posteriormente por Braun, Glanzel e Schubert (2006). O seu cálculo é feito da seguinte maneira: um cientista/periódico tem índice H se H dos seus N artigos possuem pelo menos H citações cada, e os outros artigos tem menos de H citações cada (Hirsch, 2005). Por exemplo, um pesquisador/periódico com índice H de valor 7 possui 7 artigos com pelo menos 7 citações cada.

Como resultado, o índice H fornece uma combinação tanto de quantidade (número de artigos publicados) como de qualidade (impacto, ou citações que estes documentos receberam). Portanto, o índice H é preferível à simples medição do número total de citações, uma vez que faz a correção para os One Hit Wonders, ou seja, acadêmicos que são autores de um ou de um número limitado de artigos altamente citados, mas que não demonstraram desempenho acadêmico sustentado por um longo período de tempo. O índice H também é preferível à contagem do número de trabalhos publicados, pois faz a correção para artigos que não são citados, que apresentam impacto limitado sobre o campo. Em suma, o índice H favorece acadêmicos que publicam um fluxo contínuo de artigos com impacto duradouro e acima da média (Harzing & Van der Wal, 2009).

Ainda segundo os autores, assim como o índice H para autores provê uma medida de performance acadêmica sustentada e durável, o índice H para periódicos provê uma medida robusta de performance de periódicos sustentada e durável. Os autores fizeram uma comparação entre o índice H calculado com as citações obtidas no Google Scholar e o Fator de Impacto calculado pela base de dados Web of Science para uma amostra de 838 periódicos de economia e administração e mostraram que o primeiro provê uma mais abrangente e correta medida de impacto dos periódicos.

 

Referências

Amin, M., & Mabe, M. (2000). Impact factor: use and abuse. Perspectives in Publishing, (1), 1-6.

Araújo, C. A. (2006). Bibliometria: evolução histórica e questões atuais. Em Questão12(1), 11-32.

Braun, T., Glanzel, W., & Schubert, A. (2006). A Hirsch-type index for journals. Scientometrics69(1), 169-173. doi:10.1007/s11192-006-0147-4.

Dong, P., Loh, M., & Mondry, A. (2005). The impact factor revisited. Biomedical Digital Libraries2. doi:10.1186/1742-5581-2-7.

Falagas, M., & Alexiou, V. (2008). The top-ten in journal impact factor manipulation. Archivum Immunologiae et Therapiae Experimentalis56(4), 223-226. doi: 10.1007/s00005-008-0024-5.

Garfield, E. (1999). Journal impact factor: a brief review. Journal of the American Medical Association, 161(8).

Guedes, V., & Borschiver, S. (2005). Bibliometria: uma ferramenta estatística para a gestão da informação e do conhecimento, em sistemas de informação, de comunicação e de avaliação científica e tecnológica. Anais do Encontro Nacional de Ciência da Informação, Salvador, BA, Brasil, 6.

Harzing, A. W., & Van der Wal, R. (2009). A Google Scholar H-Index for journals: an alternative metric to measure journal impact in economics and business. Journal of the American Society for Information Science and Technology, 60(1), 41-46. doi: 10.1002/asi.20953.

Harzing, A. W., & Van der Wal, R. (2008). Google Scholar as a new source for citation analysis. Ethics in Science and Environmental Politics8, 61-73, 2008. doi: 10.3354/esep00076.

Hirsch, J. E. (2005). An index to quantify an individual's scientific research output. Proceedings of the National Academy of Sciences102(46), 16569-16572, 2005. doi:10.1073/pnas.0507655102.

Leite, P., Mugnaini, R., & Leta, J. (2011). A new indicator for international visibility: exploring Brazilian scientific community. Scientometrics88(1), 311-319. doi: 10.1007/s11192-011-0379-9.

Mugnaini, R., & Población, D. (2010). Multidisciplinaridade e especificidade na comunicação científica: discussão do impacto na avaliação de diferentes áreas. Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde4(5), 23-30.

Mugnaini, R., & Strehl, L. (2008). Recuperação e impacto da produção científica na era Google: uma análise comparativa entre o Google Acadêmico e a Web of Science. Encontros Bibli, 13(nesp), 92-105. doi:10.5007/1518-2924.2008v13nesp1p92.

Narin, F. (1976). Evaluative bibliometrics: the use of publication and citation analysis in the evaluation of scientific activity. Cherry Hill: Computer Horizons.

Sevinc, A. (2004). Manipulating impact factor: an unethical issue or and editor’s choice. Swiss Medical Weekly134(410). 

Smith, L. (1981). Citation analysis. Library Trends30(1), 83-106.

Gestão

Luisa Veras de Sandes-Guimarães

A utilização de novas tecnologias na gestão editorial de periódicos científicos parece ser essencial, pois as TICs permitem melhorar a eficiência dos processos propiciando o alcance do objetivo principal de periódicos, o impacto da publicação no meio acadêmico. Ao pensar a gestão de um periódico científico, seja ele impresso ou eletrônico, em acesso aberto ou restrito, um dos aspectos mais abordados refere-se aos seus custos de manutenção. No entanto, como afirmam Guanaes e Guimarães (2012) e Dubini e Giglia (2009), a análise do modelo de gestão de periódicos científicos é mais do que a simples avaliação dos custos e da viabilidade econômica, e deve considerar em especial a questão da sustentabilidade da revista.

Dubini e Giglia (2009) afirmam que a literatura de administração e economia define sustentabilidade como a reunião de três características: efetividade (alcançar os objetivos propostos), eficiência (minimizar os recursos utilizados para alcançar os objetivos propostos), durabilidade (a possibilidade de operar com o tempo), sendo que este último aspecto frequentemente implica na introdução de soluções inovadoras para lidar com um contexto em constante mudança (Dubini & Giglia, 2009).

Guanaes e Guimarães (2012) acrescentam que a sustentabilidade do periódico envolve, além dos custos, outros aspectos relacionados diretamente ao uso de plataformas online para publicação e edição de revistas científicas (acessibilidade, recuperação de informações, navegabilidade e interatividade), e também os parâmetros de qualidade que devem estar presentes em qualquer revista científica (avaliação por pares, conselho editorial, corpo editorial entre outros, como os citados por Sandes-Guimarães e Costa (2012)).

Em consonância com as questões de sustentabilidade apontadas anteriormente, para o presente trabalho, optou-se por estabelecer duas grandes categorias para a análise da gestão de uma revista científica: a científica e a administrativa. A maior parte dos aspectos relacionados à sustentabilidade foi inserida em alguma das categorias e para cada uma foram analisados os custos estabelecidos de acordo com a literatura da área. A seguir, apresenta-se um esquema que representa sinteticamente as funções editoriais envolvidas nas categorias de gestão científica e administrativa de periódicos.

 

Fonte: Sandes-Guimarães e Diniz (2014)

GESTÃO CIENTÍFICA

Em termos de gestão científica, Trzesniak (2009) considera os seguintes requisitos como essenciais para que um periódico possa ser considerado científico: “Levar aos seus leitores-pesquisadores o conhecimento novo e relevante dentro de sua área temática; Fazê-lo a tempo e hora e perenizar-se (Trzesniak, 2009, p. 88)”.

Ambos os requisitos, se conectam com as questões de efetividade e durabilidade apontadas por Dubini e Giglia (2009) e a questão da qualidade apontada por Guanaes e Guimarães (2012). A divulgação de conhecimento de qualidade aos pesquisadores da área, com regularidade e continuamente, são aspectos que se relacionam com o que Trzesniak (2009) chama de garantia de perenidade (conselho de política editorial) e garantia de credibilidade científica (editores, corpo editorial científico e revisores ad hoc), que são detalhados a seguir.

Garantia de perenidade e de credibilidade científica

Comitê de Política Editorial

De acordo com Trzesniak (2009), a perenidade de uma revista científica é garantida por dois fatores principais: a retaguarda institucional (associação científica, instituto de pesquisas, programa de pós-graduação etc.), que deve respaldar formalmente o periódico, e o Comitê de Política Editorial. Esse último consiste em um grupo de 4 a 9 membros, composto por pessoas da instituição de retaguarda, de outras instituições de pesquisa, das áreas que utilizam a informação publicada pelo periódico, outras pessoas que a entidade de retaguarda julgar conveniente e, por fim, o próprio editor científico da revista (Trzesniak, 2009).

O comitê de política editorial é um grupo que atua e toma decisões em conjunto e que, de acordo com Trzesniak (2009), possui, dentre outras, as seguintes atribuições principais: elaboração da política editorial do periódico; discussão e aprovação de regras para constituição do próprio comitê, do corpo editorial científico e para escolha do editor científico; elaboração da missão e do regulamento da revista; indicação de critérios para aceitação de artigos; discussão e aprovação do balanço e do orçamento do periódico.

Peer Review: Corpo Editorial Científico, Consultores ou Revisores Ad Hoc

Bedeian, Van Fleet e Hyman III (2009) lembram que por mais de 300 anos a revisão por pares (peer review) tem sido o critério principal para avaliar a qualidade e a credibilidade de artigos científicos submetidos à publicação em periódicos. A expertise dos avaliadores é essencial para que contribuições relevantes e de qualidade sejam inseridas na literatura de uma área do conhecimento. Além de exercer um papel crucial na determinação do “destino” das ideias (publicar ou não), a revisão por pares também influencia no avanço da carreira de pesquisadores, já que a publicação é necessária para a promoção e a estabilidade na carreira acadêmica e se traduz em questões econômicas relacionadas ao salário, bolsas e financiamento de pesquisas (Bedeian et al., 2009).

Apesar de seus problemas, apontados por Van Raan (2003), como a presença de subjetividade na análise, a falta de reconhecimento da qualidade de alguns estudos e viés negativo contra pessoas mais jovens ou recém-chegadas no campo, a revisão por pares é e deve permanecer como procedimento principal para o julgamento de qualidade de publicações. Como afirma Martínez (2012), esse sistema se institucionalizou e segue sendo parte central na validação de publicações científicas e é aceito pela maioria dos pesquisadores como a melhor alternativa dentre as disponíveis. Para efetuar a avaliação por pares, as revistas científicas podem contar com dois grupos de pesquisadores: corpo editorial científico e os revisores ad hoc.

Corpo Editorial Científico e Revisores Ad Hoc

De acordo com Trzesniak (2009, p. 90) o corpo editorial científico é um “colegiado necessariamente multi-institucional” e sua composição deve primar pela diversidade de pesquisadores tanto em termos científicos, cobrindo todas as áreas do conhecimento às quais o periódico se dedica, quanto em termos geográficos, abrangendo as regiões nas quais o periódico pretende circular e onde se localiza seu público-alvo. Ainda sobre esse colegiado, Lo Bianco et al. (2002) o designa como:

[...] grupo de pesquisadores, eleito ou escolhido, para auxiliar o editor na tomada de decisões sobre os originais a serem publicados (decisões sobre o encaminhamento do processo editorial, escolha de consultores ad hoc, discussão de dúvidas sobre pareceres e sobre a publicação ou rejeição de originais). Este grupo pode ter um mandato e é consultado com frequência pelo editor. Deve ser integrado por pesquisadores reconhecidos na área e subáreas nas quais a revista publica (Lo Bianco et al., 2002, p. 6).

De acordo com Trzesniak (2009), o corpo editorial científico se difere do comitê de política editorial, pois o primeiro não atua em conjunto e nem se reúne para discutir algum assunto ou tomar alguma decisão, são pesquisadores que trabalham sozinhos e interagem separadamente com o editor. Além disso, o envolvimento do corpo editorial com o conteúdo dos artigos é maior, “[...] preocupando-se com a uniformidade, a continuidade, a qualidade e o rigor científico do que é publicado (Trzesniak, 2009)”.

Os pareceristas ou revisores ad hoc são avaliadores que não fazem parte do corpo editorial científico e são consultados para avaliar determinado artigo submetido à revista. Não possuem, no entanto, nenhum vínculo permanente com o periódico e encerram sua participação ao término da avaliação do artigo que lhe foi designado (Trzesniak, 2009; Lo Bianco et al., 2002).

Como sugerem Bedeian et al. (2009), de um ponto de vista mais amplo, a influência dos membros do corpo editorial vai além da simples determinação de quais pesquisadores devem receber aprovação para publicar suas descobertas. Suas recomendações sobre quais manuscritos devem ser publicados e as diretrizes que eles fornecem aos autores para revisões estabelecem os padrões científicos de uma disciplina (Bedeian et al., 2009). Rockwell (2006) explica que as opiniões dos membros desse corpo de voluntários acerca de questões como quais técnicas são atuais, válidas e apropriadas, como os dados devem ser analisados e apresentados e o quão rigorosos devem ser os autores ou o quão especulativos eles podem ser na interpretação dos dados, se tornam de fato padrões para a área do conhecimento.

Kirschbaum e Mascarenhas (2009) ao tentarem entender as diferenças entre revistas nacionais e estrangeiras em termos de papel dos revisores e dos editores no processo de avaliação de originais, identificaram que para as revistas estrangeiras analisadas, os pareceres dos avaliadores servem apenas como uma espécie de consultoria, mas na verdade é o editor quem decide sobre a aprovação ou rejeição de um artigo, apresentando um papel essencial na construção do conhecimento. Já no caso das revistas brasileiras, os revisores tem um alto grau de autonomia e são considerados guardiões do processo de construção do conhecimento, ou seja, “enquanto o artigo não se adequar as suas exigências, eles não serão publicados na revista (Kirschbaum & Mascarenhas, 2009, p. 12)”.

Equipe de Certificação Científica

Para a publicação eficiente de um periódico científico, Trzesniak (2009) afirma ser essencial que sejam separadas as tarefas administrativas das científicas (relativas ao conteúdo publicado). Deste modo, seria necessário designar dois editores, um executivo / gerente e um científico. É importante que o editor científico não seja onerado com tarefas que não são de sua especialidade e que poderiam ser realizadas por outras pessoas, já que normalmente o editor científico é também um pesquisador da área, que já possui outras atribuições além da edição e gestão da revista. O editor executivo, por ser, de acordo com Trzesniak (2009), o responsável pelos aspectos de caráter não científico do periódico, foi inserido na categoria de gestão administrativa.

Población et al. (2003) definem o editor científico como “pesquisador, de alto nível, responsável pela execução da Política Editorial e pelo conteúdo científico do periódico (p. 499)”. Como atividades científicas a serem realizadas por esse editor e sua equipe Trzesniak (2009) identificou as seguintes:

[...] natureza e ética dos anúncios; execução da política editorial; controle das dimensões de qualidade da revista; recebimento de manuscritos; estoque e encomenda de artigos; articulação com membros do corpo editorial; contato e encaminhamento de trabalhos aos assessores científicos; decisão final sobre a publicação dos trabalhos; preparação de originais; revisão integral de provas (Trzesniak, 2009, p. 93).

Tanto para auxiliar o editor científico quanto para realizar a mediação entre as esferas gerencial e científica o periódico pode contar com um ou mais editores assistentes, tendo em conta o volume de trabalho. Esse editor deve ser um pesquisador da área e suas tarefas são designadas pelo editor científico, que também pode dar liberdade a esse editor para tomada de decisões, de acordo com a maturidade científica e tempo de exercício no cargo (Trzesniak (2009) afirma que nesse momento o editor passa a ser denominado adjunto) (Trzesniak, 2009). Para Gomes (2010), o editor assistente:

[...] preocupa-se com o recebimento, a organização e a sistematização dos processos de seleção e arbitragem de textos em geral, que são a matéria-prima e razão de ser de uma publicação cientifica. Deve possuir amplos conhecimentos sobre as formas e meios eletrônicos de editoração de conteúdo, que supõe as fases de captação, avaliação e preparação editorial para impressão, além de capacidade de coordenação de equipe editorial (Gomes, 2010, p. 166).

Trzesniak (2009), Gomes (2010) e Población et al. (2003) ainda apontam a existência em algumas revistas de editores com outras responsabilidades científicas, como: editor associado, “especialista da área e/ou pesquisador que participa frequente e intensivamente da preparação científica de originais nas áreas de sua especialidade [...] (Población et al., 2003, p. 499)”, editor de seção, responsável por alguma seção permanente do periódico, editor convidado, chamado especialmente para coordenar a edição de determinado fascículo voltado a um assunto de sua especialidade (Trzesniak, 2009) e editor consultivo, “profissional de larga experiência, com conhecimentos de editoração e domínio da comunicação científica, a quem o Editor Científico recorre para se aconselhar e discutir as suas dúvidas e as questões relativas à visibilidade e ao impacto da publicação (Población et al., 2003, p. 499)”.

Custos da gestão científica

Os custos da gestão científica estão relacionados essencialmente ao que Dubini (2011) chama de certificação de conteúdo. A atividade que a certificação de conteúdo envolve é a gestão do processo de revisão por pares, que inclui de acordo com Houghton e Oppenheim (2010) o gerenciamento das submissões recebidas, a revisão inicial para verificação de adequação à política editorial da revista (desk review) e o gerenciamento do processo de revisão por pares externos. Tudo isso está ligado aos esforços que o periódico dispende para selecionar os artigos de melhor qualidade para publicação.

Os fatores que influenciam esse custo são, de acordo com Dubini (2011): número de artigos recebidos; taxa de rejeição do periódico; número de avaliadores por artigo; número de rodadas de revisão. De fato, cada artigo submetido passa pelo processo de revisão por pares e quando uma grande quantidade de artigos é rejeitada, isso, por consequência, aumenta os custos daqueles aceitos para publicação (Costs and business models, 2004). Em alguns casos, editores científicos pré-selecionam os manuscritos recebidos diminuindo o número daqueles que efetivamente passam pela revisão por pares, o que reduz os custos de encontrar avaliadores e gerenciar o processo de avaliação, aumentando, entretanto, os custos internos (Dubini, 2011).

Dubini (2011) identificou em sua pesquisa, realizada com alguns dos grandes Publishers comerciais e abertos (Elsevier, Sage, Taylor & Francis, Wiley-Blackwell, Springer, PloS etc.), que, para, por um lado, garantir a reputação e, por outro, controlar os custos a maioria dos Publishers possui em seu portfólio periódicos com taxas de rejeição diferenciadas, apresentando assim, um grupo de periódicos com altas taxas de rejeição, reputação e impacto e um outro grupo significativo de periódicos mais acessíveis.

O custo médio do processo de certificação de conteúdo no estudo realizado por Dubini (2011) é de cerca de 250 USD por artigo publicado, o que inclui os custos internos (salário pago ao pessoal da revista responsável por essa etapa) e externos do processo de organização e gerenciamento da revisão por pares. Outro estudo estimou um valor similar, que gira em torno de 200 USD por artigo publicado (Costs and business models, 2004). No entanto, dados deste último estudo citado ressaltam que, em entrevistas com responsáveis por periódicos científicos, esse valor parece ser relativamente baixo, provavelmente pelo fato de que o processo de revisão por pares compreende algumas variáveis (como o próprio tempo de envolvimento da equipe) que não são facilmente representadas em termos monetários (Costs and business models, 2004).

Houghton e Oppenheim (2010) estimaram também os custos que se incorrem no processo de peer review em si, em termos do custo de oportunidade do tempo dos acadêmicos que avaliam os artigos. Sua estimativa, sem considerar a revisão em si, somente a gestão do processo por parte da revista, ficou em média £344 por artigo publicado. No entanto, considerando uma média 2.5 avaliadores gastando em média 4.5 horas por revisão, os custos seriam aumentados em £630 por artigo avaliado. No fim das contas, considerando a questão apontada anteriormente de que o custo dos artigos avaliados e não publicados aumenta os custos dos publicados, Houghton e Oppenheim (2010) estimaram um total de £1,390 por artigo publicado.

No entanto, os custos de todo este processo variam significativamente entre periódicos, dependendo da extensão e da complexidade do processo de revisão por pares e também da taxa de rejeição do periódico (Dubini, 2011; Costs and business models, 2004). Estima-se que os custos da certificação de conteúdo compreendam entre 10% e 30% dos custos totais de publicação do periódico sendo com frequência um dos itens mais representativos (Costs and business models, 2004).

GESTÃO ADMINISTRATIVA

A gestão administrativa do periódico, impresso ou eletrônico, refere-se aos “processos de produção editorial e gráfica, de gerência administrativa e financeira, de comunicação e de marketing (Dias, 2006, p. 80)”. Os profissionais envolvidos nestas atividades não precisam ser pesquisadores da área na qual o periódico se insere, mas precisam possuir os conhecimentos técnicos necessários para execução das atividades e também necessitam estar em sintonia com os objetivos e com a política editorial da revista. É muito importante que o periódico possua uma equipe adequada para realização das atividades editoriais, afinal, como afirma Trzesniak (2009):

Preparar uma revista científica exige uma grande dedicação e implica dar seu tempo para melhorar o trabalho de outros pesquisadores, em detrimento de seus próprios projetos. Somente com o envolvimento de uma equipe isso pode ser feito sem que o editor fique seriamente prejudicado em sua carreira de pesquisador (Trzesniak, 2009, p. 97).

Gestão administrativa e financeira

Para a produção adequada de um periódico científico e para garantir seu bom funcionamento como veículo de comunicação, Dias (2006) afirma ser imprescindível a existência de determinados processos administrativos, que incluem: “a manutenção de instalações e equipamentos; a gerência financeira e o controle de fluxo de caixa e pagamentos; a proteção dos direitos sobre a propriedade intelectual e autoral (p. 88)”. Trzesniak (2009) também sugeriu como atividades gerenciais de um periódico científico: “aspectos administrativos, financeiros e de produção; levantamento de recursos financeiros e humanos para a revista; acompanhamento de serviços gráficos; distribuição e venda; divulgação; venda de anúncios (p. 93)”

É essencial que a equipe se preocupe com a manutenção de uma infraestrutura adequada para o processo de edição do periódico, prevendo a existência do “espaço físico a ser utilizado, dos equipamentos e recursos tecnológicos prioritários – computadores [...], impressoras, scanners, softwares de edição de texto e de layout, [...] instalação de rede informática, contratação de servidor seguro para arquivamento e publicação de arquivos (Gruszynski, Golin, & Castedo, 2008, p. 10)”. Um dos personagens principais dessa equipe administrativa é o editor executivo, que de acordo com Gomes (2010) apresenta as seguintes características e responsabilidades:

 

[...] o editor executivo possui um nível de informação geral e estrutural do periódico, com amplos conhecimentos administrativos e técnicos. É importante, por exemplo, que ele entenda todas as etapas da editoração, mesmo que não esteja diretamente envolvido em sua execução. É ainda responsável pela gestão dos recursos financeiros e pela observação constante das tendências editoriais e de mercado, tanto como de avaliação e visibilidade editoriais, oferecendo ao editor-chefe e ao comitê editorial informações e parâmetros essenciais para balizar as decisões a serem tomadas (Gomes, 2010, p. 166).

Produção editorial e gráfica

Em termos de produção editorial e gráfica, os periódicos impressos e eletrônicos adotam basicamente os mesmos procedimentos, de acordo com Dias (2006): tratamento e edição de textos e imagens, elaboração e edição de layouts para capas e miolo, formatação e diagramação de conteúdos, revisão final de provas e, finalmente, impressão / publicação em meio eletrônico. Gomes (2010) lembra que “neste momento, entende-se que os níveis possíveis de qualidade do conteúdo já devem estar assegurados pelos processos de pré-seleção, análise editorial e avaliação por pares (p. 167)”. Essa é uma das etapas essenciais para que o periódico científico alcance os padrões de qualidade formal e técnico-normativos exigidos especialmente de agências de fomento, sistemas de avaliação e bases de dados (Trzesniak, Plata-Caviedes, & Córdoba-Salgado, 2012; Gomes, 2010).

A etapa de edição de textos já se inicia no próprio processo de revisão por pares e se completa, para os artigos aceitos, com a revisão de ortografia, de gramática e com a normalização do texto de acordo com as regras adotadas pelo periódico (ABNT, APA, Vancouver etc.) (Gruszynski et al., 2008). Faz também parte desta etapa a tradução e revisão dos resumos e textos completos em outras línguas, de acordo com os idiomas de publicação do periódico.

A edição de layout do periódico pressupõe a elaboração preliminar de um projeto gráfico para a publicação, no qual são definidas as características que atribuem à coleção uma unidade visual, como: “diagrama [...], tipografia, estilos para ilustrações (tabelas, quadros, fotos) e recursos de produção a serem utilizados (Gruszynski et al., 2008, p. 11)”. No caso das revistas impressas, a criação de uma arte para a capa que utilize cores e imagens que chamem a atenção é importante, pois é por meio da capa que se realiza o primeiro contato com os leitores da revista (Gruszynski, Golin, & Castedo, 2008). Para a revista eletrônica, Gruszynski et al. (2008) afirmam que: "[...] o trabalho de projeto gráfico é substituído pela definição da arquitetura da informação e interface do site – com a proposta de consistência entre as páginas, tipos de recursos utilizados pelos artigos, formato dos fascículos e textos (PDF, html), sistemas de busca, ferramentas contextuais (mecanismos de recuperação contextualizada do conteúdo) e acessibilidade (Gruszynski et al., 2008, p. 12)".

 

Posteriormente, passa-se à etapa de diagramação dos artigos, de acordo com as determinações do projeto gráfico, que significa basicamente distribuir as ilustrações e os textos nas páginas do periódico. Depois da diagramação é realizada a leitura ou revisão de provas para identificar se há alguma correção a ser feita nos textos ou no layout e, finalmente, com tudo pronto e devidamente revisado e aprovado pelo editor científico, a revista pode ser impressa e publicada online (Gruszynski et al., 2008).

Sendo uma etapa não científica da produção de um periódico, praticamente todos os processos envolvidos na produção editorial e gráfica podem ser realizados por uma equipe externa de prestadores de serviço, caso a revista possua recursos financeiros para isso. Como afirma Gomes (2010), “são muitos os exemplos de revistas que têm as etapas finais de sua produção sendo executadas por uma editora universitária [...] assim como há outras que [...] repassam toda a produção final para uma editora comercial ou mesmo empresa de serviços gráficos (Gomes, 2010, p. 167)”.

Comunicação e Marketing

Dias (2006) sugere que o processo de edição de periódicos científicos também precisa contar com atividades de comunicação (disseminação e divulgação) e de marketing (comercialização e distribuição). A disseminação tem por objetivo fazer com que o periódico alcance a atenção da comunidade científica e de seus leitores, para que seus artigos, que já apresentam qualidade gráfica e científica, sejam acessados, lidos e utilizados pelos pesquisadores.

Para isso, é necessário divulgar e promover a visibilidade da publicação, o que se dá essencialmente por meio da indexação em diretórios e bases de dados referenciais, de citações ou de texto completo, que facilitam a recuperação da informação por parte dos pesquisadores, os quais possuem cada vez menos tempo para apreender toda literatura de sua área (Gruszynski et al., 2008; Dias, 2006). Dias (2006) afirma que muitos países têm optado por desenvolver suas próprias bases de dados regionais para auxiliar no aumento da visibilidade e difusão da literatura produzida por seus pesquisadores, “em face das restrições que geralmente encontram nas bases de dados controladas pelos países ricos, da ciência mainstream (Dias, 2006, p. 98)”.

Em termos do que Dias (2006) chama de estratégias de marketing, a comercialização refere-se ao processo de venda do periódico e captação de recursos para a publicação (Dias, 2006), sendo necessário que a equipe editorial defina a tiragem para cada edição, bem como as possíveis formas de aquisição (assinatura, exemplares avulsos, permuta etc.) e os formatos de disponibilização (impresso e online) (Gruszynski et al., 2008). Dias (2006) entende a distribuição como processo de intermediação entre a editora e os seus leitores, compreendendo a gestão dos canais de venda direta ou indireta (por agentes intermediários) de exemplares e a logística para sua entrega aos consumidores finais.

Custos da gestão administrativa

Com relação aos custos das atividades de gestão administrativa, Dubini (2011) buscou dividi-los em duas categorias. Primeiramente a publicação do conteúdo, que considera os custos de formatação, referência cruzada, metadados, composição tipográfica, edição, transformação em HTML e transferência de dados para a plataforma que hospeda o conteúdo (Dubini, 2011). Posteriormente, a gestão e preservação do conteúdo, que considera os custos de depreciação da plataforma instalada ou o custo de licenciamento da plataforma, os custos de manutenção anual de software e hardware e os custos com recursos humanos associados à gestão da plataforma (Dubini, 2011). Percebe-se que a autora não incluiu na sua análise os custos da eventual impressão da revista, somente sua publicação em ambiente eletrônico.

Dubini (2011) identificou que os custos de publicação de conteúdo variam entre 170 e 400 USD por artigo e dependem das decisões tomadas em termos de “fazer ou comprar”, ou seja, ter uma equipe interna para realizar as tarefas ou terceirizá-las, e também do tamanho do periódico. Houghton e Oppenheim (2010) estimam que a publicação de conteúdo custe em média £480 por artigo publicado, para edição e revisão de provas, e em média £335 para diagramação e composição tipográfica em edições impressas. Além disso, caso o artigo possua ilustrações e gráficos, adiciona-se mais £45. No caso de periódicos editados somente em formato eletrônico, os autores estimam que os custos de diagramação, composição tipográfica, ilustrações e gráficos, diminuam em 75%. Houghton e Oppenheim (2010) consideraram também os custos de preparação e processamento de conteúdos do periódico que não são artigos científicos, como as capas, índices, editoriais, revisões de literatura e resenhas de livros. Considerando que cerca de 14% do conteúdo de um periódico é composto por tais partes, os autores estimaram um valor de cerca de £100 por artigo publicado, sendo que, como no caso anterior, caso o periódico seja somente eletrônico, os custos diminuem em 75%. Estima-se que todo esse processo de publicação de conteúdo corresponda a cerca de 30% dos custos totais de publicação de um periódico (Costs and business models, 2004).

 

Já com relação aos custos associados à gestão, disponibilização e preservação de conteúdos em plataformas digitais, Dubini (2011) identificou que tais custos podem variar bastante, dependendo do fato da plataforma ser proprietária ou baseada em software livre, da idade e das características da plataforma, do número de artigos e documentos armazenados e da complexidade das plataformas em termos de serviços oferecidos aos autores e leitores. Portanto, a incidência do investimento na plataforma no preço dos artigos é difícil de calcular e mostra ser bastante variável entre os Publishers estudados (Dubini, 2011). Já os custos de manutenção da plataforma são mais fáceis de serem contabilizados e os Publishers que Dubini (2011) entrevistou relataram gastos anuais variando de 170.000 a 400.000 USD, e sua incidência nos custos por artigo dependerá do número de periódicos editados e do número de artigos publicado por periódico.

Dubini (2011) afirma que a disponibilidade de plataformas de publicação de periódicos baseadas em software livre permitem a drástica redução dos custos do processo de certificação, publicação e gestão de conteúdo, reduzindo consequentemente as barreiras para publicação de periódicos por parte de grupos de pesquisadores e favorecendo a criação de novos periódicos. De fato, Meirelles (2009) ressalta que a utilização de sistemas baseados no modelo Open Access, como o Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas (SEER), "[...] promove mais do que a transposição de métodos tradicionais para a gestão via sistema, mas também novos procedimentos, técnicas e mecanismos de editoração que otimizam a gestão das revistas e proporcionam um processo editorial mais ágil, a um menor custo (Meirelles, 2009, p. 105)".

Referências

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