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Repositório FGV de Periódicos e Revistas

Entrevista com Heloísa Starling

Bernardo Buarque de Hollanda, Marcelino Rodrigues da Silva

Resumo


Com formação em História e Ciência Política, Heloísa Starling, professora titular livre de História do Brasil da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), sempre cultivou em sua trajetória universitária o diálogo com a literatura, a música e as artes brasileiras em geral. Após uma tese de doutoramento dedicada à obra-prima de João Guimarães Rosa, o romance Grande sertão: veredas, esse trabalho nas fronteiras com o campo artístico-cultural vem se tornando cada vez mais intenso e diversificado. Tal diversificação decorre de uma produção intelectual que vem de par com iniciativas acadêmicas e editoriais coletivas e inovadoras, adquirindo a marca de uma história pública em sentido pleno.

Fiel ao preceito de que a universidade tem por missão articular ensino, pesquisa e, sobretudo, extensão, Starling vem desenvolvendo projetos, eventos e seminários capazes de atingir um público mais amplo. Não se trata simplesmente de estratégias de disseminação do conhecimento científico, mas em particular do cultivo de uma interlocução com a sociedade, em uma via de mão dupla. Pois, como se sabe, cabe à universidade extrapolar o insulamento de seus campi, criando vínculos externos com o restante da população, de modo a tornar suas atividades atraentes e relevantes não apenas para estudantes e professores.

Nesse sentido, pode ser mencionada a organização de seminários interinstitucionais como o “Decantando a República”, realizado em 2001 na PUC-Rio, com a reunião de uma nata de intelectuais que se debruçou sobre a obra musical de nomes como Noel Rosa, Tom Jobim e Chico Buarque – para ficar apenas com alguns, da predileção da professora Heloísa –, a fim de delinear o “inventário histórico e político” da moderna canção popular brasileira. Pode-se também aludir ao seminário “Sentimentos do Mundo”, comemorativo dos 80 anos de fundação da UFMG, em 2008, que teve a participação de destacadas referências literárias internacionais, a exemplo do escritor moçambicano Mia Couto e da crítica argentina Beatriz Sarlo.

Esses eventos, entre outros, amplificaram-se graças à publicação de livros, CDs, DVDs e outros produtos de alta qualidade, utilizados com fins culturais e didáticos, muitos dos quais realizados em parceria com personalidades da cultura brasileira. Basta lembrar o memorável show da intérprete Maria Bethânia no campus da UFMG, em que a cantora declamou uma série de poemas da língua portuguesa, de Fernando Pessoa a João Cabral de Melo Neto, de Luís de Camões a Ascenso Ferreira, espetáculo que foi publicado sob a forma de um esmerado Caderno de poesia.

 

Dentre as iniciativas da professora, pode-se ainda citar o Projeto República, um centro de memória e documentação voltado à preservação da história republicana brasileira e à reflexão sobre o alcance do republicanismo no país. De seus projetos de extensão mais recentes, vale ainda a referência ao “Sentimentos da Terra”, um caminhão-museu itinerante que percorre as cidades brasileiras, interage com públicos locais e narra as diversas formas de luta pela terra no interior do país, ao longo da história nacional, incluindo as reservas indígenas, as experiências quilombolas e os projetos de reforma agrária.

Nesta entrevista, concedida em Belo Horizonte no início de 2017, Heloísa Starling fala de sua trajetória biográfica e acadêmica, explicando os motivos que levaram uma jovem estudante mineira a optar pelos cursos de História e Jornalismo, em meados dos anos 1970, ainda em plena vigência do regime militar.

A entrevistada aborda também sua dissertação de mestrado, defendida no Departamento de Ciência Política da UFMG em meados dos anos 1980. Em um estudo denso, a autora apresenta os resultados de sua pesquisa sobre as origens da ditadura militar, amparada por fontes primárias então desconhecidas e ainda hoje pouco exploradas acerca da gênese, da conformação ideológica e do desfecho do golpe de 1964 no estado de Minas Gerais.

Heloísa trata do livro decorrente de sua dissertação – Os senhores das Gerais: os Novos Inconfidentes e o golpe de 1964 – e mostra sua interlocução com outros pesquisadores que, na conjuntura de fins da década de 1980, também publicavam trabalhos sobre a deposição de João Goulart, tais como Wanderley Guilherme dos Santos, autor de uma “anatomia de uma crise”, e seu próprio orientador, René Dreifuss, que publicou naquela época o polêmico 1964: a conquista do Estado.

Starling discorre ainda sobre o seu doutorado em Ciência Política no IUPERJ, defendido no ano de 1997, sob orientação do professor José Murilo de Carvalho. Nesta altura, relata como se deu seu interesse pela Teoria Política e pela questão republicana, relativa à res publica, que se consolida como um dos grandes temas da sua carreira, analisando para tanto a influência da formação iuperjiana nesse processo.

O doutoramento também marca sua aproximação com a literatura, pois é neste momento que ela se dedica à obra de João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas. O estudo do romance enfrenta o desafio de lidar com a temática ficcional no interior das Ciências Sociais, em particular em uma instituição de referência da pós-graduação em Sociologia e Ciência Política no Brasil.

Ao contrário do que seria de se esperar entre historiadores, politólogos e cientistas sociais, sua leitura do romance de Guimarães Rosa não se limita a esquematizações sociológicas ou a vieses externalistas/contextualizadores. Identifica-se sua opção por um corpo a corpo com a ficção, destrinchando o intrincado enredo rosiano, o que é evidenciado por meio de inúmeras citações diretas e fragmentárias à obra, influência de teóricos caros à sua formação, como Walter Benjamin.

Em consonância com a temática do presente dossiê, a entrevista detém-se na interface história/literatura e analisa suas implicações do ponto de vista da escrita da História, considerando o alcance e os limites da ficção na historiografia. Starling se posiciona diante de um debate que, como é sabido, parte do campo dos Estudos Literários, desde as revisões epistemológicas de Hayden White nos anos 1970 até os mais recentes ensaios filosóficos de Jacques Rancière, dedicados aos efeitos pragmáticos e políticos das práticas estéticas, configuradoras das formas de imaginar e construir a realidade.

Esse interesse da autora pela literatura e pelas artes se desdobra nos estudos da história da moderna canção popular no Brasil. Heloísa comenta como a música brasileira ganha vulto em sua agenda de pesquisas, convertendo-se em um de seus principais campos de investimento reflexivo. Avalia, assim, até que ponto o trabalho com o cancioneiro popular pode ser considerado um alargamento de seu método de análise da ficção literária, tal como empreendido na leitura de obras de Euclides da Cunha, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa.

Por fim, Heloísa Starling trata de uma de suas últimas publicações, ao refletir sobre a ideia de uma “biografia” do Brasil, presente no título do livro escrito em parceria com a antropóloga Lilia Schwarcz. A metáfora biográfica do país é avaliada pela autora menos como uma reiteração da visada nacionalista, tão presente nos séculos XIX e XX, e mais como um diálogo com o potencial constitutivo da ficção e com o papel da imaginação no processo de reconstituição histórica.


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